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A Raposa e o politicamente correto

27/07/2010 17:38 -- 14744 -- Cachoeiro de Itapemirim > Regional

A RAPOSA E O POLITICAMENTE CORRETO

Só muito tempo depois, diante do Excelentíssimo Senhor Juiz, o Sr. Raposa (era macho, diga-se de passagem, é importante frisar, e não cometeremos aqui o deslize de chamá-lo raposo, o que talvez soasse mais fácil ao entendimento, mas nem tudo que é de fácil entendimento é verdadeiro, e vice-versa) continuava sem entender o que estava fazendo ali.

PROMOTOR – O senhor está ciente das acusações que lhe estão sendo feitas?

RAPOSA – Confesso aos senhores que não faço a menor idéia do que está acontecendo nesta sala, nem dos fatos de que venho sendo vitima nos últimos meses. É como se a minha vida se tivesse transformado, súbita e abruptamente, num romance de Kafka.

JUIZ – olha por cima dos óculos, em silêncio.

PROMOTOR – Pois saiba que pesam sobre o senhor acusações do inafiançável delito de discriminação por cor, o que fere os princípios fundamentais da nossa magnífica Carta Magna. O que o senhor tem a alegar em sua defesa? Culpado ou inocente?

RAPOSA – Senhor promotor, com todo respeito, devo dizer-lhe que, se nem ao menos tinha consciência de estar sendo acusado de delito de qualquer natureza, é óbvio que alegarei inocência diante de tão execrável delito. E se me é permitido saber, gostaria mesmo de perguntar de onde é que surgiu tão famigerada história envolvendo o meu nome.

PROMOTOR – dirige ao Juiz um olhar interrogativo.

JUIZ – assente com a cabeça e um leve encolhimento dos ombros. Alguma coisa estava errada naquilo, ele não sabia em quem colocar a culpa, mas com certeza não era dele.

PROMOTOR – Desculpe minha estupefação, mas ocorre que o caso do qual o senhor é réu é de conhecimento público, havendo conquistado espaço na mídia e, pode-se até dizer, se me permite usar o coloquial, Excelência, na boca do povo…

RAPOSA – continua com ar de quem não está entendendo patavina (se me permite o coloquial).

PROMOTOR (irritando-se) – Ora, senhor Raposa, não nos teste a paciência, que o assunto é sério e todos temos mais o que fazer! Por acaso não foi o senhor que proferiu a seguinte frase – e consulta no volumoso processo, passando as páginas com alguma violência perfeitamente simulada – aqui está: “As uvas estão verdes”?!

RAPOSA – Sim, eu me lembro de haver dito a frase.

PROMOTOR – Enfim estamos chegando a algum lugar. Que conste nos autos, portanto, que o réu confessa haver proferido a frase de que é acusado, como justificativa para não comer as uvas.

RAPOSA – Um momento, senhor Promotor. Eu disse que proferi a frase, mas jamais disse que não comi as uvas.

Um longo “oohhhhhh” percorreu a sala de audiências, seguido de intenso burburinho, obrigando o Senhor Juiz a pedir ordem no recinto.

RAPOSA – Parece-me que está havendo uma grave distorção dos fatos, invertendo-se, dessa forma, toda a interpretação da história. Eu admito haver dito que as uvas estavam verdes, mas em momento algum tal afirmação serviu de pretexto ou motivo para que eu não as comesse. Pelo contrário, Senhor Promotor, Excelência: eu cheguei à conclusão de que as uvas estavam verdes após haver degustado várias delas.

PROMOTOR – O que me parece, Excelência, é que o réu é que pretende distorcer os fatos, a fim de conduzir a erro este Juízo.

JUIZ – Prossiga o réu em seu depoimento.

RAPOSA – Obrigado, Excelência! Como eu dizia, após perceber que as uvas sabiam mal, e frise-se que fiz questão de provar várias vezes, para eliminar completamente a mais remota possibilidade de um julgamento apressado e parcial, após sentir a acidez e o amargor em minha língua, muito mais para vinagre que para vinho, foi que senti-me no direito de emitir o parecer que tão mal interpretado me parece haver sido.

PROMOTOR – Mas o senhor confessou haver dito que as uvas estavam VERDES.

RAPOSA – Sim, e sustento.

PROMOTOR – Portanto, Excelência, o depoimento do réu em nada afeta a tipificação do delito ou a sua responsabilidade e rogo-lhe que prossigamos com o julgamento, que a pauta anda cheia e a imprensa aí está. O réu disse que as uvas estavam verdes. Verde é cor. Comendo-as ou não, emitiu opinião baseando-se na cor das mesmas. Está caracterizada a discriminação por cor e a justiça precisa ser aplicada de forma exemplar.

RAPOSA – Senhor Promotor, eu gostaria de esclarecer que em nenhum momento eu me referia à cor das uvas. Se alguém interpretou minhas palavras dessa maneira, o fez por motivos próprios, aos quais sou e desejo permanecer totalmente alheio. Encontrassem-se as referidas uvas em situação oposta, e eu jamais diria tal coisa, independente da cor que apresentassem.

PROMOTOR (muito irritado) – E o senhor poderia ter a bondade de nos explicar qual é o oposto de VERDES, senhor Raposa?!

RAPOSA – Maduras, Excelência.

Novo “oohhhhh” percorre a sala. Novo pedido de silêncio por parte do Juiz.

PROMOTOR (enxugando o suor da testa) – Mas o senhor entende que, ao usar tal termo, VERDES, assumia, ainda que inconscientemente, o risco de uma interpretação ofensiva, por referir-se também a uma cor?

RAPOSA – Sim, Senhor Promotor. Embora tal ofensa jamais me houvesse passado pela cabeça.

PROMOTOR – E ainda assim usou a palavra VERDES?

RAPOSA – E que outra palavra eu poderia usar?!

Comentários - 1 on 0 off.

Fabiano Moraes - Enviado em 27/07/2010 19:39

Taí, primo, de todas as versões que já li de A Raposa e as Uvas: Esopo, La Fontaine, Monteiro Lobato e Millôr Fernandes, fico com a sua (e com grande vantagem). Parabéns! Você chega na essência da essência do que funda uma fábula: a inseparável conexão entre o mais atual e o atemporal. Abraços!

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