Um sabor para cada voz
Memória Auditiva e Gustativa
- “Olhaeeee o deliciosooooooo!”
Parece que foi ontem, mas muita água já rolou por debaixo da ponte. Eu estudava no Bernardino Monteiro, onde hoje funciona a sede da administração municipal. Estava na 3ª ou 4ª série, e a carrocinha azul daquele simpático senhor, que vendia uma espécie de sorvete caseiro realmente “delicioso”, como o nome indicava, ficava parada na praça Jerônimo Monteiro, quase em frente à escola. Todos que passassem por lá na década de 70, gravariam para a eternidade aquela voz e a conhecida frase. “Olhaeeee o deliciosooooooo!” Hoje me lembra as aulas da dona Terezinha (História), da dona Roseclair(Português), o pique no pátio na hora do recreio e a jornada para casa ao fim do horário. Naquele tempo não era perigoso. A voz ficou ligada ao gosto do sorvete que nunca esqueci.
- Mas como surgiu este assunto na minha mente?
É simples. Agora há pouco passou uma caminhonete vendendo Tangerina Pokan aqui na frente e a voz anunciava:
- Éeeeh Taaangeriiinaaa Pocaaaaaaaan!! Doooooce dooooooce mél! Chega aqui minha senhora! Sóóó cinco reais o pacoteeee! Taaaangeriiinaaa Pokaaan!.
Não me lembro da época que isso começou, mas me lembro da mesma voz anunciando uva, melancia, etc... Parei para pensar, e vi que esta voz já tinha entrado na história da minha vida, assim como de mais um montão de gente, e eu nem sequer sei quem é o locutor que a grava. Corri até a caminhonete e os rapazes não souberam responder minha dúvida. A voz, ainda ativa, tem, para mim, gosto de Pokan.
Comecei a pensar nestas vozes, conhecidas ou anônimas, que escrevem páginas em nosso livro da vida. Elas são capazes de nos transportar, como uma máquina do tempo imaginária, a passagens e épocas interessantes de nossas vidas. Então pensei em relembrar quais eram as vozes que haviam ficado gravadas em minha memória, e impreterivelmente, voltei ao Bernardino Monteiro e ao sorvete “Delicioso”. Daí para frente foi só uma questão de paciência e atenção para anotar.
Depois lembrei do nosso amigo Nelson Pereira, nos memoráveis anos de Rádio Cachoeiro e sua inesquecível voz anunciando a “PAAAAAAARAAAAAADINHAAAAAAA”. Essa me leva para o estúdio, pois eu era operador de áudio na rádio. Tem gosto de sorvete de banana caramelada da Sorveteria Sem Nome, que ficava em frente à rádio.
Música também funciona. Your Song, com Bilie Paul, era usada como sinal de início e fim do recreio no Polivalente Aquidaban. Me lembra do pátio da escola, dos amigos e tem gosto de cachorro quente de pão de sal (Aquele com carne moída e salsicha), custava Cr$0,50.
Ficou também a voz do Fernando Mansur. Ele vinha da Rádio Cidade do Rio para fazer um programa, mensalmente, na Tribuna FM. - "Diga-me láaa! Conte-me tudoo! Não esconda nadaaa!!!". Eu que ouvia rádio o dia inteiro, aguardava o programa que sorteava um monte de discos com ansiedade. Esta me lembra a música da Rita Lee – Saúde, o dia que a tia Ivone mudou-se do Ibitiquara para o Conjunto Átila Vivácqua. Me lembra a gelatina tricolor (que parecia caco de vidro) e as tortas de biscoito de maisena que sempre apareciam nas datas especiais da família.
Inesquecíveis as vozes dos saudosos Cliveraldo Miranda e do Raul Silva. O primeiro me lembra de Videocassete (ele teve uma locadora) e o segundo me lembra a “Seventy Seven Danceteria”, que funcionou nos Caçadores. Têm gosto de Pipoca (de filme) e de “cuba libre” nos bailes, respectivamente.
Não posso esquecer-me da voz que era patrimônio da festa de Cachoeiro. Os desfiles eram na praça Jerônimo Monteiro, e as caixas de som instaladas nos postes por toda a extensão do centro da cidade anunciavam: - “A.P.S. Arteee, Publicidadeee e Soomm!!” Ou mesmo, em outras vezes, - “Afrânio Publicidade e Sonorizações”. Lembra-me das bandas do Liceu e do Cristo Rei desfilando, daquelas bolas de gás que pareciam uma foca, com um nariz comprido, ou a outra que não tinha nariz, mas tinha duas orelhas. Também me recorda as balizas, que se contorciam em malabarismos. Tem gosto de biscoito de polvilho, aqueles que chamamos de engano, que somem quando mastigamos e que eram vendidos pelos ambulantes durante o desfile.
Tem mais um montão de vozes que fazem parte de nossa vida. Dourado, Juarez Marqueti, Marcão, Wiliam Lima, Marquinho Libardi (cantando atirei o pau no gato), Luiz Carlos Santana, Tadeu Barreto, Mauro, etc... Perdoem-me os não citados, mas todos estes participaram por mais tempo e em circunstâncias bastante variadas, não ficando vinculados a um momento, evento ou sabor específico.
