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Amigos e Inimigos

21/04/2012 09:56 -- 33607 -- Cachoeiro de Itapemirim > Regional

AMIGOS E INIMIGOS

Por que ir aos extremos? Simplesmente pelo fato de existirem. O sujeito me despenca da Europa numa antiquada caravela para vir parar nosquintosdos infernos por quê? Simplesmente porque existe, porque pode. É o velho hábito de buscar os próprios limites, ou, o que vai fazer alguém saltar de cima de uma ponte gigantesca, pendurado por um elástico na cintura, somente para “sentir a adrenalina” do bump jump?

Desde pequenininho (há poucos anos), temos o hábito de nomear amigos. Amigo da escola, amigo da rua, da vizinhança, do trabalho (mais tarde), etc... As vezes mal conhecemos, mas o título é distribuído, no início, sem muito critério.

Com o passar dos anos, o oposto acaba por surgir no vocabulário de muita gente. Geralmente são antigos amigos, que, destronados do posto entregue prematuramente, nos causam alguma dor e acabam sendo classificados na outra categoria inglória, os inimigos.

Claro que não é fácil alguém assumir que tem inimigos (isto é anti-cristão), isto choca. É como ter alguém atribuído permanentemente à condição de mal, de imperdoável, etc... Temos vergonha de declarar que alguém é inimigo, então, atribuímos uma categoria intermediária menos amaldiçoada por estigma, um desafeto (que no fundo no fundo é a mesma coisa, mas com um nome mais brando).

O mais interessante de tudo é que não existem inimigos sem a necessária passagem pelo laço da amizade, do afeto ou mesmo de namorada, marido, esposa, etc... É incrível, pois não se vê por aí, com freqüência, inimigos natos. Não é normal, diante das explicações da vida material, pelo menos, alguém que nos cultive um desafeto sem uma ação causadora aparente. Então, a grande maioria das vezes nossos inimigos estão catalogados entre aqueles por quem nutrimos, anteriormente, um sentimento de afeto.

É uma palavra mal dita, uma escolha que nos desagrada, a falta da consideração que julgamos merecer ou outra coisa qualquer. Quando cultivamos um bom sentimento por alguém, construímos um rol de qualidades e similaridades que formam elos a selarem um relacionamento, mas quando um ou mais destes elos se rompem, começamos a preparar, mesmo inconscientemente, outra lista com as divergências e/ou defeitos que não nos agrada naquele pessoa. O simples fato de a nova lista existir nos permite iniciar a catalogação de alguns outros pontos de divergência que nem percebíamos antes e ela cresce quase que sozinha. O desequilíbrio desta balança para um ou outro lado é o que permitirá definir em que lado se encontra a pessoa em nossa vida.

Algumas pessoas utilizam de um critério mais seletivo antes de distribuir o título de amigos aos recém conhecidos. Atribuem títulos intermediários, como colegas, ou conhecidos, às pessoas com quem não tiveram experiência suficiente para estabelecer um maior grau de confiança que as intitule de amigos. Este critério diminui a expectativa e a exigência sobre os recém apresentados. Permite-lhes uma avaliação com menor grau de cobrança e maior tolerância, permitindo, também, a observação mais minuciosa de certas nuances de comportamento que lhe permitirão compreender aquela pessoa. Geralmente aqueles que se utilizam destes critérios fazem menos amigos e, geralmente, também, têm menos inimigos, pois não são surpreendidos, ou decepcionados, com tanta facilidade.

Quantas vezes também as chamadas “amizade” são destruídas por falsas interpretações? Uma conclusão mal feita, uma observação desequilibrada ou uma fofoca mentirosa servem como veneno letal para muitos relacionamentos. Outras são rompidas pelo nosso próprio desequilíbrio. O ciúme, o personalismo, o egoísmo são micróbios vorazes que consomem a nós mesmos, e àqueles que nos cercam, de dentro para fora. Exigimos a preleção pelo nosso próprio ponto de vista daqueles a quem julgamos manter certo afeto. Pedimos a mesma preferência de escolha ou a mesma consideração, esquecendo-nos que as pessoas são todas diferentes.

Dentro de nós reside um senso de avaliação que faz parte da nossa própria individualidade. Este senso geralmente traz uma capacidade de avaliação personalizada pela nossa própria necessidade de auto proteção e de auto defesa. Julgamos a tudo e a todos então pela forma que nos parece mais conveniente. Damos preferência pelas pessoas mais próximas até mesmo quando elas estão erradas, buscamos justificativa para os nossos erros ao invés de assumi-los, achamos sempre uma saída onde nossa posição seja privilegiada em relação à das demais pessoas.

Este senso participa de todos os nossos julgamentos, mas, quase sempre, como um juiz comprado, que emite sentenças sempre favoráveis para um lado só. Este senso julga a conduta de todas as pessoas com quem convivemos e é ele que distribui as sentenças que mantém ou rompem aqueles elos que sustentam os relacionamentos.

Com este julgamento, quase sempre matizado, decidimos quem se manterá na nossa categoria de amigos ou quem será rebaixado à sofrida condição de inimigo, ou desafeto. Desprezamos os agravantes e atenuantes que não nos interessam, egoisticamente definimos quais testemunhas podem ou não ser ouvidas e quais depoimentos têm ou não significância para a decisão e permitimos que a sentença seja lavrada com toda injustiça possível, muitas vezes nos momentos de maior raiva, deixando o desequilíbrio ter voto minerva em nossas decisões.

Há pouco mais de 2300 anos, o grande sábio e filósofo Sócrates nos legou um convite que até os dias de hoje nos desvia o próprio olhar diante do espelho:

- Conheça-te a ti mesmo!

Se fôssemos capazes de encarar o espelho da alma com a sinceridade que esperamos dos nossos “amigos”, ver a intolerância com a qual os julgamos e, tudo isto, diante de um juiz reto para balancear a sentença, certamente colocaríamos nosso “senso de julgamento” no banco dos réus. Descobriríamos que tantos “banidos” do nosso círculo de relacionamento mereceriam melhor consideração e, por fim, concluiríamos que nosso verdadeiro “Inimigo” reside dentro de nós mesmos.

Comentários - 5 on 0 off.

maria filomena celestino - Enviado em 15/03/2013 15:52

Meu amigo que saudades de vc, nossa agora que eu consegui te achar novamente, amo seus escritos. Vc e muito inteligente sou sua fabjbjbjbjbjbj

Karina Sant'Anna de Souza - Enviado em 11/06/2012 11:14

Lendo e aprendendo... Isso se encontra somente em bons textos, aos quais as palavras são utilizadas de maneira inteligente e correta.

Vitória - Enviado em 13/05/2012 23:43

Muito bom esse texto! Achei legal pois me fez recordar de algo que aconteceu em meados de 2009 (maio/agosto), um fato que quase me fez perder uma grande amizade devido a "uma conclusão mal feita" e meu julgamento precipitado, mas depois tudo se resolveu da melhor forma, desde então aprendi a não julgar severamente os outros...aprendi a ouvir mais e ser mais cautelosa antes de adotar qualquer medida em situações que dependam de uma solução ou mesmo de um julgamento! E minha amizade não terminou, muito pelo contrário se fortaleceu, pois hj nos momentos difíceis que venho enfrentando, esse amigo me surpreendeu no mês passado com um gesto muito legal: resolveu aparecer de forma inesperada em meu escritório para me fazer uma visita e acabou me ajudando a resolver umas questões inerentes ao nosso trabalho. Como dizia Vinícius de Moraes:"A gente não faz amigos, reconhece-os!!!"

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