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"Discunjuro!"

29/10/2009 18:19 -- 4253 -- Cachoeiro de Itapemirim > Regional

"Discunjuro!"

Era aproximadamente oito e meia da manhã. À medida que eu subia a escada que dava acesso ao consultório oftalmológico, um vozerio pouco compreensível se tornava cada vez mais alto. Eu havia quebrado meus óculos numa viagem na semana anterior, e como os braços não alcançavam mais a distancia necessária para tornar as letras legíveis, eu precisava de fazer outro, como pretendia ainda ler alguma coisa.

- Ele está dizendo que Deus não existe. Vê se pode uma coisa dessas... – Assim era recebida, por duas senhoras inconformadas, cada pessoa que atingia o topo da escada, pegando um debate acalorado em andamento.

- Se alguém conseguir me provar que ele existe, eu acredito. – Retrucava um senhor que aparentava uns oitenta e poucos anos, sentado no banco a frente.

Eu ainda não havia encontrado minha colocação no Hall aonde todos aguardavam a abertura do consultório, mas já começava a imaginar o teor do impasse. Algumas pessoas balançavam levemente a cabeça num gesto negativo a cada alegação do suposto ateu, que falava com um ar de felicidade e sentindo-se o senhor da razão. Outros riam disfarçadamente quando as duas mulheres, unidas na defesa, respondiam acaloradamente as alegações do incrédulo.

Procurei descobrir a minha posição de chegada na fila imaginária. Eu era o sétimo, atrás de um senhor que usava uma camisa vermelha. Já não era o último da fila, pois chegara uma mulher com uma garotinha, que foram prontamente recepcionadas:

- Esse homem, nessa idade, está dizendo que não acredita em Deus. Ele só pensa em dinheiro.

E o homem, que era o primeiro da suposta fila, começou:

- Fui num médico esses dias atrás e ele me cobrou cem reais. Quando eu contei o número de pacientes que ele atendeu até chegar a minha vez eu não aguentei e falei: Doutor, o senhor ganha em um dia, mais do que eu ganho no mês todo. E ele respondeu: Eu estudei para isso. – e continuou, na segurança da supremacia do seu ponto de vista – Vai pedir a Deus para pagar a consulta para ver no que dá!

- "Discunjuro!" – falava uma das senhoras com uma cara de assustada.

A estas alturas do campeonato, a secretária da médica abriu o consultório, uma fila começou a se organizar e uma parte das doze pessoas que a compunham não coube dentro da recepção. O primeiro da fila era “aquele senhor”, que parecia estar se divertindo com a polêmica lançada no ar. Logo atrás dele, as duas senhoras, como se fossem escudeiras, a proteger todos os outros presentes “dele”.

- Qual o nome do senhor? - Pergunta a recepcionista a preparar as fichas para o início do atendimento.

- Comendador Fulano de Tal. Escreve assim: COMENDADOR – frisou – Fulano de tal.

- A ótica só paga “tal” exame, sendo assim, como o do senhor é completo, o senhor tem que pagar cinquenta reais. – Orienta a mocinha educadamente e recebe o valor do paciente.

Enquanto a segunda da fila era atendida, ouço a voz do nosso polêmico amigo que olhava para a fila:

- ...nove, dez, onze, doze. Seiscentos reais! Só aqui nessa fila. – Lá estava ele a contabilizar o faturamento do consultório de forma simplificada.

Preenchidas as fichas, todos que couberam na sala se sentaram e a paz parecia se instalar, quando o silêncio foi rompido pela voz masculina mais conhecida do ambiente:

- Todos os dias eu peço perdão ao meu pai. Ele foi um grande homem.

- Seu pai ainda está vivo? – Pergunta preventivamente uma das duas senhoras.

- Não. – Responde o ateu.

- Então o senhor não tem que pedir perdão a ele não. Morreu acabou. O máximo que o senhor pode é pedir perdão a Jesus. – Atacou a senhora que parecia estar sentindo falta do bate-boca.

Neste instante, não escondo que quem ficou na dúvida fui Eu. O ateu demonstrava acreditar numa vida após a morte, e a beata agora achava que tudo acabava, “Morreu acabou!”. A frase não permitia dupla interpretação.

- Acho que na próxima vez, vou vir mulher. – complementou o homem com um sorriso esboçado nos lábios. – Ele aparentava estar se divertindo, e isto ficava claro para todos a cada minuto que passava, menos para aquelas duas senhoras que tomaram o debate como cruzada de fé.

- Eu já acreditei nisso, Graças a Deus mudei. É coisa do demo. – Alegava a outra senhora a respeito do pensamento reencarnacionista do suposto ateu.

Logo-logo fui atendido, mas passei boa parte do dia pensando no desenrolar daquela pequena comédia que divertira a todos os pacientes do dia. Não quero defender pontos de vista individuais ou coletivos, afinal, a liberdade de credos, apesar de nem sempre ser respeitada, foi implantada neste país há muitas décadas.

O que me chama a atenção, é a forma com que as pessoas compram debates religiosos em busca da defesa de pontos de vista que professam. Reconheço que a difusão e divulgação de toda e qualquer postura religiosa, está diretamente ligada ao esforço dos participantes dessa ou daquela corrente, e da forma com que estão envolvidos com a mesma.

A migração de seguidores entre religiões no Brasil é enorme, e é claro que o trabalho dos incansáveis divulgadores está diretamente ligado ao crescimento do número de adeptos de cada vertente religiosa, Cristãs ou não Cristãs. Mas afirmo nunca vi uma “conversão” obtida por imposição ou por constrangimento de debates religiosos que quase sempre terminam em nada.

Aqueles que conhecem um pouco de história podem ver claramente que, os grandes missionários que se destacaram no cenário mundial, à frente de significativos movimentos religiosos, não levaram as pessoas ao constrangimento para impor seus pontos de vista.

Francisco de Assis, Martinho Lutero, Madre Tereza de Calcutá, Chico Xavier, Dalai Lama, o próprio Jesus, tanto mencionado hoje em dia (perdoem-me os não mencionados, que são muitos), convenceram grandes multidões a respeito do ponto de vista que acreditavam, através de suas condutas de vida.

Sair a pregar pelo mundo suas profissões de fé, sempre será um ato louvável, desde que tenha como meta sincera, ajudar o melhoramento do mundo e a redução do sofrimento para o próximo. Mas a verdadeira crença religiosa é algo muito pessoal, de foro realmente intimo. De nada adiantará, obrigar alguém a falar “Eu creio”, nisto ou naquilo, se intimamente a pessoa continuar a pensar da mesma maneira.

Mudar o pensamento das pessoas, é trabalho que requer tempo, paciência e dedicação. Ajudar no diálogo fraterno, conduzindo alguém, a uma análise racional a respeito de determinada filosofia de vida ou crença, pode realmente levar a uma mudança de visão pela compreensão. Mas se podemos deixar uma afirmação sobre qual a melhor maneira de ajudarmos àqueles que notamos professar um ponto de vista diferente do nosso, deixo esta:

A PALAVRA CONVENCE A MUITOS, MAS O EXEMPLO ARRASTA MULTIDÕES.

==================================

A propósito:

Desconjurar = esconjurar, arrenegar, amaldiçoar, exorcizar. (Dic. Escolar FAE)

Desconjuro = dito popular para desfazer as maldições, pragas e conjuros invocados. Expressão típica dos Açores para quando algo corre fora do normal.

Comentários - 1 on 0 off.

Dino Simas - Enviado em 30/10/2009 18:43

Kaiê, Gostei muito do seu arrtigo e concordo em gênero, número e grau! Ainda mais, quando você afirma que a expressão desconjuro é proviniente dos Açores, já que sou Açoariano (Da Ilha Terceira...). Para complementar seu pensamento e seu artigo, peço aos internautas que procurem na Biblia - Novo Testamento - a frase dita por Jesus acerca da salvação: "Nem todo aquele que diz Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus! Então, podemos perceber que nem todos aqueles que vivem tentando "convencer" alguém, tem o coração puro para se apresentar à frente de Jesus! Um abraço Dino

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