“A Vida é luta Renhida”
“A Vida é luta Renhida”
Tantos filósofos, poetas, cientistas, religiosos, já definiram a Vida... Foram tantos que não precisamos repensar para fazer também uma frase de efeito, um sábio aforismo, do gênero “viver é jeito, morrer é descuido”.
Acho, porém, que mais opiniões sobre a Vida não vão alterar coisa alguma na vida de qualquer pessoa. Assim sendo, resta-nos aceitar e refletir os versos do poeta – o único com sensibilidade para falar da vida... e da morte, por extensão: “A vida é luta renhida, viver é lutar; a vida é combate que aos fracos abate e aos bravos, aos fortes, só tende exaltar”.
A vida é uma incógnita... ou serão várias?, com desfecho único, esperado e temido. Exata a definição que me deram: “A vida é uma doença temporária, de caráter genético, transmitida sexualmente; é fatal mas se cura com a morte”. Bem mais sensata que a de um filósofo-de-esquina, que disse, tolamente, “não haver nada que envelheça mais a gente que o passar do tempo”.
E vivemos unicamente para preservar a vida, adiando a morte, o mais possível. Ou não? Acho que todos lutamos apenas pelo direito de continuar na fila da Morte. Se bem que, mesmo parando, não seguindo a fila compelida pelo Tempo, Ela virá nos buscar um dia qualquer.
É, eu estou na fila! Aliás, todos nós estamos, desde o instante do nascimento, ou até antes de nascermos! Não podemos ceder a nossa vaga para outrem, furtando-nos ao destino. Quantas vezes Ela vem e fura a fila, levando quem estava lá atrás, antes do que estava na dianteira? E isso dói. Dói sempre, que a nossa previsão, a previsão de cada um, é chegar à porta do Além o mais tarde possível. Há os insensatos que não acreditam chegarão lá, e se apegam a tudo, esquecendo de todos os companheiros. Se soubéssemos como lograr o deus Thanatos, por certo nós o faríamos, indefinidamente, até que nos cansássemos de tanto viver. A verdade é que nos aterroriza a idéia de ser plantado numa cova escura e úmida e fria, ou, para os que acreditam em algo mais, a idéia de estar diante de uma porta imensa e poderosa, encimada pela fatal inscrição dantesca: “Lasciate ogni speranza, voi ch´entrate”.
Sei que estou na fila e já umas duas ou três vezes ensaiei a longa viagem, mas não era o momento, ainda não concluí minha missão. Outros foram em meu lugar. Quantos amigos! Meu pai. Meus irmãos, de sangue e de fé. Tantos outros, melhores que eu e que não conheci, infelizmente. Outros nem tiveram tempo de conhecer alguém mais, ocupados com encher os bolsos, às vezes com o que tomaram de outros companheiros. E você está sempre ocupado com o hoje, de repente é chamado a abandonar os bens ciosamente amealhados. Só então se dará conta de que não lutou pela vida mas tão somente pelos bens nem tanto assim essenciais ao viver. Aliás, os bens é que atulham o caminho e comprometem o sossego da viagem. Eles foram úteis apenas para anestesiar-nos da realidade, afastar-nos dos companheiros deste passeio que poderia ser mais proveitoso, mais calmo, mais digno.
Sim, há que se ter dignidade para morrer sem medo de que nos persigam as maldições dos que ficaram, oprimidos, esquecidos e ofendidos por nosso egoísmo natural; os que pisamos com nosso orgulho e nossa enganosa impressão de que somos mais importantes que todos. Melhor, então, ser mais humano, mais humilde e morrer abençoado pelos amigos e conhecidos. Para os gusanos isso não altera, que eles não têm escrúpulos – devoram todos, democraticamente.
A vida é luta constante. É finita. E nos obriga a lembrar que não podemos viver nem lutar sozinhos, nem chegaremos sozinhos ao ponto final. Vamos sempre necessitar dos outros, ainda que seja para levar-nos ao forno ou ao fosso. E depositar-nos com carinho na cama indesejada mas inevitável.
