ViaES Entrevista Bia Bedran que participou da Bienal Rubem Braga (Video Bia Bedran)

Em sua segunda visita a Cachoeiro, a artista faz sua primeira apresentação em praça pública

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ViaES: O trabalho que você vem fazendo é completamente diferente do que a gente vê hoje na mídia, que valoriza o sucesso, a moda. Certas músicas suas, como “O pedalinho”, “O anel”, O trem”, conquistam o gosto popular, pois hoje as professoras cantam para as crianças e as canções acabaram se misturando com a cultura do nosso passado, pois para essas crianças serão parte da cultura que farão parte da história e da vida de cada uma delas. Como você vê isso? Você esperava alcançar esse patamar quando começou o seu trabalho?

Bia Bedran: É interessante que a gente não pensa em uma projeção de longa duração, para sempre. A gente faz a estrada. Eu acho que eu vim caminhando e construindo o que chegou hoje, como resultado, para mim, pois são 36 anos fazendo esse trabalho. Quando eu comecei contando histórias, ainda muito jovem, eu não entendia a fundamentação teórica da importância que esse material teria na formação das pessoas. Eu ia fazendo por que achava interessante trabalhar com a tradição oral e com a memória, pois eu sempre fui poeta, nasci fazendo canções, me preparei para a música desde menina e para mim a questão da palavra sempre foi muito forte. Eu sempre escrevi crônicas, antes mesmo de aprender a ler eu fazia versos que minha mãe anotava, então quando eu fui encontrando a arte profissional, eu fui utilizando as coisas em que eu acreditava, mas sem imaginar que em um futuro tão digitalizado, tão informatizado, tão globalizado, isso se tornaria uma forma de resgate. Eu não pensava: eu vou trabalhar com uma coisa que vai ser muito importante por que o mundo vai precisar disso, e no entanto foi isso que aconteceu. Eu fico feliz porque o trabalho embalou o coração de tanta gente e por ser um trabalho de efetivo uso no cotidiano de muitas pessoas, porque tem ancestralidade e tem contemporaneidade, o que é exatamente o tema da dissertação de mestrado que eu vou defender no dia 30 de junho, foi sobre isso que eu pesquisei no meu mestrado. Veja que eu acabei fazendo o caminho inverso, o meu mestrado trata do caminho que eu percorri na prática e agora eu vou escrever e teorizar sobre isso.

VIA-ES: Recentemente você fez um trabalho em cima da obra de João de Barro, o Braguinha, que acabou sendo uma fusão da arte de contar histórias com a música, como surgiu a idéia dessa mescla e que resultados você obteve?

Bia Bedran: Eu quis criar esse DVD e esse espetáculo como uma homenagem à pessoa dele, que foi meu inspirador nessa arte de cantar e contar. Quando eu era menina, na década de 50 para 60, eu escutava todo o trabalho que ele fazia na série disquinhos como produtor, pois o Braguinha, além de um grande compositor, tinha uma visão do mercado. Ele foi o precursor do contar e cantar em discos. Isso que a gente faz hoje, de colocar nossas histórias em discos, quando ele que começou não existia. Na década de 50 havia o rádio e o que fez foi colocar em discos os clássicos da literatura universal como Cinderela, Chapeuzinho Vermelho, criando canções: ‘pela estrada afora eu vou bem sozinha...’ muito lindas, não é mesmo? Então ele fez dessas artes e eu quis homenageá-lo no ano em que ele completaria 100 anos, e ele morreu com 99 anos, um pouco antes da estréia do espetáculo. Para mim considero que fiz uma escolha feliz, pois neste projeto eu não estou como compositora, mas sim como interprete que conheceu profundamente essa obra enquanto e que agora como artista posso recontá-la.

Continuação - 2ª parte

Continuação - 3ª parte (Fim)

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